07 dezembro 2016

Meninos do Namibe, estudantes no Lubango...





 Sport Clube Maristas, no 1º torneio do sul de Angola de hoquei em patins. Da esq. para a dt., em cima 3 moçamedenses: Maló de Abreu (Nico), Hernâni Silva, Alvaro Ascenso, e embaixo, outros 2: José Castro Alves e Mário Augusto Lopes em baixo. Reconheçe-se o huilanos Caria (em cima, a dt.) e Agostinho ( o 2º, em baixo).  

Dos oito, cinco são moçamedenses e alexandrenses, o que mostra bem quanto o «bichinho» do hóquei em patins estava entranhado nos jovens de Moçâmedes, na época. Aliás, a década de 1950, na qual teve início esta modalidade, foi uma época de ouro do hóquei em patins na cidade de Moçâmedes, que se prolongou até finais da década de 60.
 
Estas foto foi tirada em 1956 em Sá-da-Bandeira (Lubango), mostram-nos alguns jovens de Moçâmedes e da vizinha Porto Alexandre que se encontravam a estudar no Liceu naquela cidade onde alinhavam na equipa de hóquei em patins do Liceu Diogo Cão e na equipa de futebol dos Maristas. O mesmo em relação às fotos que seguem.




Equipa de futebol dos Maristas (Huila) Da esq. para a dt., em cima apenas reconheço o moçamedense Alvaro Ascenso (3º).  Embaixo: Apenas reconheço, entre os jogadores, dois moçamedenses José Alves(1º) e Júlio Eduardo Almeida (Juju, o 3º)






De novo a equipa de hóquei em patins dos Liceus de Sá da Bandeira. Aqui, no decurso de uma excursão a Lourenço Marques.  Da esq. para a dt, em cima, reconheço entre outros, os moçamedenses Álvaro Ascenso (1º), ?,?,?, Artur Trindade (5º), ?, Nono Bauleth (7º), ?,?,? Embaixo: Reconheço entre outros, o huilano Peyroteu (1º) e o moçamedense Pólvora Dias (2º), ?,?,?. 




Entre amigos que deles se foram despedir, a foto mostra-nos 3 jovens moçamedenses de partida para a Metrópole onde, em finais da década de 1959, iam prosseguir os estudos. São eles Júlio Eduardo Almeida (Engenharia), Manuel Dias Monteiro (Medicina), e Amilcar de Sousa Almeida (Direito). Os amigos são Zeca Carequeja. Carlos Manuel Guedes Lisboa e Norberto Edgar de Almeida.



Porque teriam os nossos jovens que abandonar a sua terra e a sua família para, aos 10 anos de idade, após o primário, terem que se deslocar para Sá da Bandeira, se quisessem prosseguir os estudos?

Isto acontecia devido à ideia retrógada que vigorava na época, de que a escola pública deveria realizar uma reprodução social e cultural, ideia que levou as autoridades portuguesas a entenderem que Moçâmedes, considerada que sempre fora uma cidade essencialmente voltada para as coisas do mar, não deveria possuir uma instituição liceal, bastando proporcionar à sua juventude estudos práticos, considerados mais adequados ao meio, numa escola secundária e apenas ao nível do curso geral.

Os estudos liceais, considerados como propedêuticos ao ensino superior, destinavam-se  aos futuros candidatos a uma Universidade na Metrópole, uma vez que a
Universidade de Luanda só veio a ser criada já em 1969. Esta ideia não só prejudicou os filhos de Moçâmedes, como obrigou aqueles que pretendiam prosseguir os estudos para níveis superiores, a muito cedo terem que deixar as suas casas e as suas famílias, para ingressarem no Liceu Diogo Cão em Sá da Bandeira, a cidade mais próxima, a expensas de suas famílias, e quantas vezes com os maiores sacrifícios.

Em Moçâmedes, até 1961, ao nível estatal do ensino secundário, existia apenas a Escola Comercial de Moçâmedes que havia sido convertida
em 17 de Março de 1952, a partir da antiga Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, escola de cariz técnico-profissional, que não dava a equivalência ao curso geral dos liceus. Uma vez no Liceu Diogo Cão, em Sá-da Bandeira, os nossos jovens ficavam alojados no Internato dos Maristas que servia de apoio àquele Liceu, ou em pensões (como a Pensão Lubango, que nos anos 1950 foi propriedade de uma moçamedense, Hélia Paulo Dias e de seu marido, o algarvio Armando Sabino Dias), ou  ainda em casas particulares ou de familiares. No Internato dos Maristas onde a maioria dos estudantes ficavam alojados, os adolescentes na idade considerada crítica (os «médios») eram entregues à vigilância do Irmão Celso, que fazia o culto da disciplina e que segundo os próprios estudantes, os castigava com dureza sempre que considerava necessário.

Outros estudantes de Moçâmedes havia, que por razões de preferência, ou por motivos económicos, escolhiam a Escola de Regerentes Agrícolas do Tchivinguiro, onde ficavam alojados em regime de internato. Esta Escola, de frequência gratuita, ficava situada na província da Huila, no alto da Serra da Chela,
em edifício de grandes dimensões, no isolamento de uma imensidão de terras até onde a vista alcançava, era algo de conventual, calmo, sossegado, silencioso. Para ali entravam após o 2º ano, e dali saiam ao fim de uns anos aptos a investirem os seus conhecimentos em prol do desenvolvimento agrícola e pecuário de Angola.

Quanto à instituição liceal em Moçâmedes, esta só viria a ser fundada com o nome de Liceu Almirante Américo Tomás, a partir de 21 de Outubro de 1961. Ainda tenho presente o dia em que o Professor Adriano Moreira se deslocou a Moçâmedes, aquando da sua visita a Angola, no ano crítico das matanças da UPA nas fazendas Norte de Angola, e foi feita uma manifestação nocturna junto ao Palácio do Governador com gritos de ordem: se faziam ouvir:  queremos um Liceu!...queremos um Liceu!... Foi então que o Ministro, surgindo na varanda do Palácio, disse simplesmente para a multidão: «o Liceu de Moçâmedes chama-se «Liceu Almirante Américo Thomás». A manifestação tinha sido uma encenação, porque a decisão já estava tomada. Mas finalmente Moçâmedes tinha alcançado o direito ao seu Liceu, ainda que numa 1ª fase apenas ao nível dos estudos gerais liceais (5º ano).


Quanto aos estudos gerais universitários em Angola, foi já após os acontecimentos no norte do território, e num cenário bizarro de guerra e prosperidade que, em 1962, vieram a ser criados em Luanda, quando do surgimento do Plano Deslandes propondo a criação urgente do ensino superior em Angola. Como referiu o Secretário Provincial, Amadeo Castilho Lopes, «...visava-se, com a criação do ensino superior, a formação e a actualização de técnicos de agro-pecuária, médicos, engenheiros e professores do ensino secundário, no sentido de Angola passar a dispôr de condições que lhe permitissem formar os técnicos e agentes qualificados das actividades básicas, indispensáveis para promover o desenvolvimento económico e social do território e que as Universidades da Metrópole não se mostravam capazes de fornecer, em tempo útil nem na qualidade desejável».

A Universidade de Luanda só veio a ser criada já em 1969 e oferecia cursos apenas em Ciências, Engenharia, Medicina e História, sendo notória a falta em Angola de uma Faculdade de Direito e outra de Economia.  Os alunos que quisessem prosseguir estudos nesses campos, tinham de fazer um exame de aptidão à universidade e depois seguir para a Metrópole (Portugal - Lisboa, Coimbra ou Porto). O governo português era naturalmente adverso a esses desejos e assim resistiu durante anos para que esses cursos fossem leccionados nas colónias. Foi graças a um pedido de um grupo de alunos finalistas do Liceu Salvador Correia de Luanda, no ano de 1969, dirigido ao Governador Geral Coronel Rebocho Vaz e ao Reitor da Universidade de Luanda, Professor Ivo Soares que em Agosto de 1970, o Curso Superior de Economia foi estabelecido em Luanda e em Lourenço Marques (Moçambique), e moldado segundo o modelo do Curso Superior de Economia da Universidade do Porto. 

A partir da década de 70, o Curso de Regentes Agrícolas passa a denominar-se Curso de Engenheiros-Técnicos Agrários.

Para culminar, em 05.07. 1975, já em vésperas da independência de Angola, foi resolvido à pressa, desdobrar a Universidade de Luanda em três: Universidade de Luanda, Universidade do Huambo e Universidade do Lubango. A resistência à Faculdade de Direito manteve-se até ao fim. Eles lá sabiam porquê! E nós também!
Por curiosidade, transcrevo parte de um texto que encontrei aqui


«(...) Reza a história, que o processo da criação do ensino superior em Angola não foi nada pacífico e teria mesmo conduzido a uma crise política no Conselho de Ministros de Portugal, dirigido por Oliveira Salazar.

«A criação do ensino superior em Angola, nas circunstâncias em que se verificou – por iniciativa e decisão do Governo Geral e do Conselho Legislativo de Angola – viria a ser considerado mais um acto de irreverência e de insubordinação, que gerou um conflito grave com o Governo Central e comprometeu, nos círculos de influência política, o próprio Ministro do Ultramar, Professor Adriano Moreira».


A este propósito, explica-nos Amadeu Castilho Soares:

« (...) para certas personalidades e grupos de influência do regime político nacional, a decisão do Governo de Angola da época, ao criar o ensino superior, teria sido instigada pelo próprio Ministro do Ultramar, Professor Adriano Moreira, numa manobra considerada traiçoeira, para tornear os obstáculos que o impediam de realizar as reformas de fundo que intentava introduzir na política ultramarina do Governo Central, na linha da autonomia progressiva e irreversível, que defendia. A difícil situação pessoal em que o Ministro foi colocado, em toda esta questão, teria oferecido então o pretexto para provocar o afastamento da cena política de um protagonista incómodo, que conquistara grande prestígio e popularidade na opinião pública».

Em Setembro de 1962, o Governador Geral de Angola, General Venâncio Deslandes seria exonerado pelo Conselho de Ministros e algum tempo depois o Ministro do Ultramar Professor Adriano Moreira, seria também afastado do seu cargo. Estes factos históricos revelam-nos, na sua substância, a ausência de uma visão estratégica do Conselho de Ministros de Portugal, no que concerne à implantação do ensino superior e à criação de uma Universidade em Angola.

Tudo era complicado para Salazar, que preferia manter o povo o mais possível afastado do saber, convencido que desse modo melhor preservaria a sua «jóia da corôa», Angola, e com ela o regime instituído, incapaz da abertura mental suficiente para evitar a tempo a autêntica «ratoeira» que nos estava a criar... A ousadia do Governador teria também os seus efeitos, na demissão do cargo de que era titular na Administração Pública Amadeu Castilho Soares, o jovem e corajoso Secretário Provincial que havia concebido e posto em acção o PLANO DO GOVERNO GERAL DE ANGOLA PARA 1962, aprovado pelo Conselho Legislativo, em 7 de Outubro de 1961, e conhecido pela designação: «Levar a escola à sanzala»


Voltando aos estudantes moçamedenses, apesar da inexistência de uma instituição liceal em Moçâmedes até 1961, e de uma Universidade em Angola até 1969, alguns moçamedenses conseguiram aceder a uma Universidade na Metrópole, ou até mesmo na África do Sul. Não eram ricos, uns (um ou dois) fizeram exposições e lá conseguiram uma bolsa de estudo de Salazar, outros fizeram-no a expensas das respectivas famílias e com grandes sacrifícios, e alguns deles numa luta titânica contra toda uma série de condicionalismos, como era, por exemplo o caso das equivalências, que lhes dificultava o caminho ou mesmo os impossibilitava de ir mais longe. Cito o caso pessoal de um conhecido e brilhante moçamedense que tão empolgantemente o relata, e que pode ser lido com um «clic» aqui: «Menino do Namibe».
Como se pode ver, os condicionalismos existentes não conseguiram demover a vontade de vencer deste «cabeça de peixe» ou «cabeça de pungo», como eram conhecidos os filhos de Moçâmedes. E de modo idêntico aconteceu com outros mais. Os ditos «cabeças de pungo» tinham já por toda a Angola fama de pessoas muito inteligentes, e não me refiro apenas àqueles que antes de 1969 tiveram que partir para bem longe para se licenciaram, alcançando por via dos seus cursos cargos de prestígio, mas também àqueles que ali permaneceram, ali trabalharam e ali se projectaram como proprietários nas áreas da agro-pecuária, comércio e indústria piscatória, e a tantos outros que se evidenciaram no campo profissional em altos postos na função pública (sobretudo Finanças, Obras Públicas), e na Banca, onde inúmeros moçamedenses ascenderam à categoria de Gerentes e Inspectores bancários, cargos que na época eram de elevado prestígio.

A título de curiosidade recordarei aqui, que era comum defender-se já naquele tempo e naquelas paragens o quanto uma alimentação rica em peixe era essencial ao bom funcionamento do cérebro. Sem dúvida, o povo é sábio! E o certo é que hoje pesquisas científicas confirmam claramente que, quando as pessoas consomem quantidades mais adequadas de ácidos glaxos ômega-3, a sua função cognitiva, especialmente a sua memória, melhora significativamente, e que o omega 3 ajuda ao desenvolvimento do cérebro. Orgulho à parte, os moçamedenses comiam muito peixe!

Enfim, parafraseando o «Menino do Namibe» : Meninos do Namibe que souberam, como tantos outros, superar a mediocridade dos que os queriam ver espartilhados entre o mar sem fim e o imenso Kalahari e, com o estigma do seu apoucamento intelectual...

Pesquisa e texto de MariaNJardim

Para saber mais sobre: Estudos Gerais Universitários


Slideshow Angola do outro lado do tempo V, in Dailymotion- Angola V
Colocado por mariusangol

02 dezembro 2016

A ponte de cais de Moçâmedes.

A ponte na actualidade





Quando o autor anónimo publicou o livro «Quarenta e cinco dias em Angola», em 1862, ainda não existia qualquer ponte de embarque/desembarque em Moçâmedes, conforme assim deixou escrito: “não obstante a extensão e a superioridade do fundeadouro, na baía de Moçâmedes os embarques e desembarques faziam-se aos ombros dos nativos que desastrados por vezes compeliam os passageiros a um banho forçado” .





Nesse livro o mesmo autor aproveita para sugerir a construção de um cais que nivelasse a praia pela altura aproximadamente das construções regulares, com estacarias para embarque/desembarque de pessoas, e uma ponte de carga e descarga para o serviço da Alfândega, e refere também que já Fernando da Costa Leal, que foi governador de Moçâmedes entre 1854-1859 e entre 1863-1866, estivera empenhado na construção de uma ponte que convergisse na direcção da Alfândega, mas até 1873 esta continuava por construir por falta de verbas, com grande prejuízo para o avanço da economia do Distrito. E o Governador que se lhe seguiu, Joaquim José da Graça (1866-1870), chegou mesmo a abrir uma subscrição particular entre as pessoas mais abastadas da terra, que produziu a quantia de 20000 réis. O cais era imprescindível até pelo perigo que sempre espreitava o embarque/ desembarque de pessoas e mercadorias do modo como era efectuado.
Subscrições públicas eram aliás o meio a que os colonos recorriam quando o apoio estatal era ausente, como aliás se veio a verificar em Moçâmedes em várias situações e nas diferentes épocas.



 A ponte no início do século XX


O piquete da Guarda fiscal que ficava ligado à ponte através de carris de ferro, por onde deslizavam "vagonetas", carregando as mercadorias, para lá e para cá, deslizando sobre carris de ferro

 Veja-se aqui os carris na direcção do edificio da Alfândega , e os telheiros onde ficavam guardadas as mercadorias  de grandes dimensões




Segundo o mesmo autor, passaram ainda por Moçâmedes mais dois governadores, Estanislau de Assunção e Almeida (1870 até 1871) e Lúcio Albino Pereira Crespo (1871 até 1876) . Foi em 1873, 24 anos após a fundação de Moçâmedes, quando já muitos colonos fundadores haviam perecido, que a primeira ponte em madeira, assente sobre estacas, foi inaugurada. Mas esta pouco tempo depois ruiu e se inutilizou, conforme informou superiormente o então governador Costa Cabral (1877-1878), ao mesmo tempo que propunha ao Governo a urgente substituição, e lamentava a inexistência no local de outros meios de embarque/desembarque que se faziam em ocasiões de grandes calemas com perigosos riscos pessoais e sensíveis prejuízos para as mercadorias.

Manuel Júlio de Mendonça Torres, a actual ponte foi inaugurada no dia 04 de Agosto de 1881, conforme mencionado in Conspecto Imobiliário do Distrito de Moçâmedes, anos 1860 a 1879, Boletim do Ultramar.

Dá para imaginar como era difícil a vida dos primeiros colonos idos de Pernambuco e chegados a Moçâmedes nos anos 1849 e 1850, onde se dedicaram essencialmente à produção agricultura e ao comércio. Os pioneiros tiveram o apoio do Estado português na sua deslocação, em alguns engenhos que lhes foram abonados, e nos primeiros meses da sua estadia, beneficiaram da distribuição de terras e pouco mais. Chegados ali tiveram que trabalhar duro para pagar ao Estado português os engenhos, com o produto das primeiras safras. E os que chegaram em 1850 valeu-lhes para a sua viagem um determinado montante conseguido através de subscrições. Acabaram por ficar votados à sua sorte. Inda a acção dos pioneiros, coadjuvada pelos serviçais que iam conseguindo angariar , foi de tal modo relevante que em 1855 à pequena povoação foi concedida a categoria de vila, como reconhecimento pelo esforço efectuado. Tinham passado apenas seis curtos anos… E nos dois primeiros anos as culturas haviam sido avassaladas por uma seca terrível que de abateu sobre Moçâmedes.Moçâmedes era então uma vilazinha prometedora, limpa e arrumada, de traçado moderno, como não houvera outra em Angola. A seguir aos luso-brasileiros começaram a chegar os pescadores olhanenses. Lançaram-se ao mar, navegando por sua conta e risco, em caíques, palhabotes e outros barcos à vela, iam também eles sem quaisquer apoios estatais, com o fito único da riqueza piscícola daquele farto mar, mas ainda mal haviam conseguido erguer-se, já o recém criado sistema de impostos caia sobre os pioneiros vindos do Brasil e sobre o olhanenses.

Apesar dos esforços do Marquês de Sá da Bandeira, o apóstolo da abolição da escravatura, em 1836, e do seu empenhamento num projecto colonial de ocupação e progresso, Angola continuava a marcar passo. Aliás, logo no início do século XIX, Portugal viu-se percorrido por uma infinidade de situações adversas que se prolongaram por toda a 1ª metade do século: invasões francesas, fuga do rei e corte para o Brasil, revoluções e contra-revoluções, lutas sangrentas que acompanharam a transição do absolutismo para o liberalismo, crises e mais crises, agrícolas, económicas, financeiras, comerciais, demográficas, etc etc. Tudo isto representa um panorama que hoje dificilmente se consegue imaginar.

 O ouro do Brasil  tinha alimentando uma corte opulenta proporcionando-lhes um prestígio que os fez ignorar a miséria do  povo e o atraso em que o país se afundava. Com a perda do Brasil a situação agravou-se, já que era inexistente no Portugal da época, uma base social capaz de sustentar e dar impulso a uma política de expansão colonial.

O povo português era um povo pobre, o analfabetismo no início do século XIX, rondava os 95% e no início do século XX, apesar dos esforços, era ainda de 75% entre a população com idade superior a 7 anos. Voltado para a resolução dos problemas da sua Metrópole, restava a Portugal poucas energias para uma efectiva viragem para as colónias de África, apesar do empenhamento do Visconde de Sá da Bandeira, o paladino da abolição do tráfico de escravos (1836), e apesar do seu ambicioso projecto em prol de um novo paradigma colonial de povoamento e de progresso económico. A 2ª metade do século XIX foi de regeneração do Portugal metropolitano exaurido, através de uma política de desenvolvimento, sobretudo na agricultura e nas vias de comunicação e transportes e em infra-estruturas sociais que acabaria por gerar excessivo individamento.

A presença portuguesa nas colónias limitava-se à administração e ocupação de áreas estratégicas ao longo da costa, onde marinheiros, comerciantes e traficantes portugueses tinham chegado antes dos seus congéneres europeus, e aí tinham estabelecido entrepostos de comércio e cidadelas, nalguns casos cidades, como Luanda e Benguela. Mas não correspondia a uma ocupação efectiva, uma vez que pouco mais havia que o tráfico de escravos para o Brasil e Américas  e negócios a ele associados que geraram novas camadas sociais, como foi o caso das elites crioula.  Não floresciam comunidades europeias  como na América do Norte, Austrália ou na África do Sul. 

Do interior  pouco se conhecia, e quem o penetrava fazia-o por sua conta, risco e proveito. Portugal detinha o estatuto de país descobridor, mas não possuía gente nem condições económicas e financeiras para ocupar um território 14 vezes e meia maior que a Metrópole. Em relação a Moçâmedes algumas tentativas goradas de criar comunidades foram feitas para além dos colonos de Pernambuco, com colónias penais e militares, com jovens casapianos, operários estrangeiros, soi-disant camponeses. Todas tinham redundado em fracasso.

Sá da Bandeira pretendia encontrar nas possessões o garante de acesso mercados abertos às produções industria e agricultura portuguesa sem dependência da politica comercial dos governos estrangeiros. As possessões africanas garantiriam o acesso a mercados vantajosos abertos às produções da industria e da agricultura sem dependência da politica comercial dos governos estrangeiros. Forneceriam em troca, sem exportação de numerário, os géneros de que Portugal  carecia, e dariam empregos à navegação nacional e à industria a ela ligada. O arranque da revolução industrial na Grã-Bretanha impossibilitava qualquer tentativa de concorrência aberta. Não era fácil a Portugal investir nas colónias numa altura em que procurava através de empréstimos externos resolver os problemas da Metrópole. No que toca a investimento privado raramente existia alguém disposto a fazê-lo em África preferindo investir na Metrópole.E se surgia alguém, português ou estrangeiro interessado constituição de companhias  coloniais não passavam de actividades especulativas de vida efêmera. Incluso os esforços feitos pelo  governo na segunda metade da década de 1850 para que se constituísse uma empresa de navegação a vapor encarregada de fazer a ligação, por carreiras as regulares, entre a metrópole e Angola, não produziu efeitos. Acabou por se formar, em 1858, a Companhia União Mercantil, de nacionalidade portuguesa, subsidiada pelo Estado, que acabou falindo em 1864. devido a pouco conhecimento de negócios, excessiva cobiça de ganhar depressa e muito,

Foi a Conferência de Berlim (1884-1885) que obrigou Portugal a um acordar mais enérgico em relação às "colónias" de África. Mas já na década de 1870 os sinais tinham começado a tornar-se evidentes. com a convocação por Leopoldo II da Bélgica, para Bruxelas, em Setembro de 1876, da Conferência Geográfica Internacional , para a qual Portugal não foi convidado, e onde se começou a gizar as bases da partilha de África, e se acordou, a necessidade de explorar cientificamente as partes conhecidas deste imenso continente, facilitando a abertura de vias de penetração para o interior.  Foi então que seguindo o exemplo dos parceiros europeus interessados na "Partilha de África", deu início às viagens de exploração e investigação científica, e também enviou exploradores que se aventuravam pelo interior africano, alegando direitos históricos. A Sociedade de Geografia de Lisboa, fundada em 1875, patrocinou grandes travessias da África realizadas pelos portugueses Serpa Pinto,Hermenegildo Capelo, e Roberto Ivens, destinadas a explorar e estudar o território, dando continuidade às anteriores expedições portuguesas oitocentistas, efectuando a ligação das duas costas, do Atlântico ao Índico. Procede-se a explorações mineralógicas e geológicas, a par do reconhecimento geográfico e cartográfico. Procurava-se assim abrir caminho para capitais e colonos, promover a colonização dos territórios sobre os quais reclamava tutela, num tempo em que Africa era vista pelo seu clima doentio, fatal para europeus ali em pouco tempo acabavam por perecer com o paludismo, febre amarela, doença do sono, etc etc. Aliás decorria ainda aquela Conferência e já Portugal tinha conseguido enviar para as terras Altas da Huíla os dois primeiros contingentes de colonos madeirense, desviando-se para o efeito a corrente migratória que estava sendo dirigida na direcção das Ilhas Sandwich, no longínquo Havai, ilhas Caribe, Guianas. etc. Fugiam da pobreza estrutural de uma sociedade deveras estratificada, onde só alguns podiam viver com dignidade, para lugares longínquos onde muitas vezes eram obrigados a trabalhos próximos da escravatura, e onde deixavam o suor e o sangue em canaviais de açúcar.
 
Com a Conferência de Berlim (1884-5) a prioridade das Descobertas deixou de ter qualquer valor, impunha-se a ocupação efectiva. Isto é, o reconhecimento, por parte dos sobas e régulos indígenas, da soberania de uma potência europeia sobre os territórios tradicionalmente pertencentes a uma ou várias etnias, contra a validação dos direitos históricos reclamados por Portugal. Era o “pegas ou largas”, o que implicou a definição das fronteiras dos territórios cuja posse Portugal reivindicava, com os das novas potências, e o consequente envio maciço de tropas, que redundou na escalada dos conflitos principalmente com as tribos africanas. Na prática o o avassalamento, preparando terreno para a entrada de gente e de capitais.


 
 Descarregando um batalhão militar e munições no desurso das Campanhas do Sul de Angola


Este o contexto histórico da época em que a ponte de embarque/desembarque de Moçâmedes foi inaugurada no dia 04 de Agosto de 1881. Esta ponte iria ser a porta de entrada para os batalhões e o armamento militar necessário ao desenrolar das Campanhas Militares do Sul de Angola. Iam com a missão de dominar as populações nativas insubmissas, nem que fosse em detrimento das populações de origem europeia que já estavam instaladas no litoral, e das populações indígenas que, ao longo de gerações e gerações, ali tinham vivido. Iam também assegurar os contornos da fronteira sul face à cobiça da Alemanha, a quem na “partilha” coubera o Sudoeste Africano (actual Namibia). É aqui que começa a história desta ponte que, tal como o Caminho de Ferro de Moçâmedes, e o comboio inaugurado em 1905, só avançou quando imperativos estratégicos e militares a tornaram imprescindível. E não tanto por imperativos económicos do Distrito e Interland.


 

 A ponte de Moçâmedes enquanto "plateia"  a partir de onde os residentes acompanhavam os mais diversos eventos marítimos, no caso desta foto, uma corrida de natação



Nela desembarcaram repetidas vezes batalhões e armamento militar vindos da Metrópole. Iam com a missão de assegurar os contornos da fronteira sul face à cobiça da Alemanha, a quem na “partilha” coubera o Sudoeste Africano (actual Namibia). Iam com a missão de dominar as populações nativas insubmissas, nem que fosse em detrimento das populações de origem europeia que já estavam instaladas no litoral, e das populações indígenas que ao longo de gerações e gerações, ali tinham vivido. Por ela não passaram apenas pessoas comuns, gente de trabalho e de negócios, mercadorias, e até gado que era introduzido em batelões através de guindastes, etc etc.

 
 Visita a Moçâmedes de D. António, Bispo de Angola


Por ela passaram exploradores, cientistas, investigadores, geólogos, missionários, padres, bispos, cardeais, por ela passou um Principe real, passaram Presidentes da República, Governadores Gerais, Ministros,etc etc.

Era através dela que tudo escoava, no ir dos navios de carga, de passageiros, etc, dos caíques e palhabotes nas suas viagens de cabotagem, etc, desde os tempos em que o fundeadouro permitia encostar à ponte, antes dos assoreamentos, até tempos mais próximos em que ficavam ao largo, fundeados a meio da baía, e a carga para ela convergia através de batelões, e os passageiros através de pequenos "gasolinas" .

 
 A 1ª fase das obras da construção do cais acostável

 


 


A inauguração do primeiro troço do cais acostável, iniciado com a visita a Moçâmedes do General Craveiro Lopes, em 1954, e completado em 1957, marcou o início da decadência desta ponte, da qual hoje em dia apenas resta o esqueleto. Uma ponte que foi deveras útil para as pessoas e a economia, não apenas no Distrito como também do Interland .

Uma ponte que guarda História, mas que parece ninguém querer salvar!

MariaNJardim.

13 novembro 2016

Familias de Moçâmedes: Gomes Almeida









Fotos do albúm de familia, gentilmente cedidas por Vina Almeida Gomes.

07 novembro 2016

Raul Radich Junior, um brilhante moçamedense









RAUL RADICH JÚNIOR



A terra que me tem e que me guarda os ossos
É a mesma que amei e que servi!,
Aquela onde nasci
E onde sempre medi
Os homens por colossos!

Amei a minha terra como ama
A luz seus brilhos!
Foi para mim orgulho, honra e fama
Ter sido, embora humilde, um dos seus filhos!
Por ela me nasceram sonhos de riquezas,
E a alma se me abriu de toda fascinada:
Ah!, vê-la transformada
Na mais rica e feliz das terras portuguesas!
Lutei conforme pude
E a ela me entreguei sem outro norte
Que servi-la com honra e com virtude
Do berço até à morte!
A vida, à terra, dei-a
Com sonho e com labor
Na grande maré cheia
De todo o meu amor!
Quando tombei,
Tive-a no pensamento!
E lembro-me que chorei,
Nesse momento!



( Angelino da Silva Jardim )


  


Texto da Homenagem prestada ao Raul Radich
Júnior, a 1 de Agosto de 2004 no Encontro anual
em Caldas da Rainha.
in: Adimo

27 outubro 2016

Inauguração do Estádio Municipal de Moçâmedes, em 26 de Novembro de 1972






Inauguração do Estádio Municipal de Moçâmedes (actual Namibe) «Telmo Vaz Pereira», em 26.11.1972.



Estávamos a 3 anos da independência de Angola, quando finalmente Moçâmedes passou a dispôr de um novo Estádio Municipal: o "Estádio Municipal Telmo Vaz Pereira", no local conhecido por "furnas de Santo António". Este local, que ficava perto do antigo campo de aviação, foi aproveitado para o efeito por se tratar de um baixio que se adaptou perfeitamente àquela construção. Uma curiosidade: era para essas "furnas" que em tempo de cheias do rio Bero escoavam as águas que transbordavam do leito,
quando as margens do rio ainda não se encontravam reguladas.


 

                            Descerramento da placa comemorativa pelo Governador do Distrito de Moçâmedes.
 
 Na bancada de honra: o Governador do Distrito, Luís Gonzaga Bacharel, Presidente interino da Câmara Municipal de Moçâmedes, o Eng.Alípio Pinheiro da Silva, Lourdino Tendinha, Presidente da Câmara Municipal de Porto Alexandre.
Sentadas: as respectivas esposas



Este dia, para além da cerimónia tradicional de descerramento da placa comemorativa pelo então Governador do Distrito de Moçâmedes, foi marcado por um desfile de atletas de todas as modalidades desportivas, e ainda por um jogo de futebol disputado entre o Independente de Porto Alexandre e o Varzim Sport Clube. A partir de então, atletas e espectadores passaram a dispor de melhores condições e a cidade em geral passou a beneficiar de instalações mais compatíveis com a época e as necessidades crescentes do um distrito em permanente evolução.







  Desfile de atletas de todas as modalidades no dia da inauguração do Estádio Municipal «Telmo Vaz Pereira», dia 26 de Novembro de 1972



Para trás ficaram os campos de terra batida e sem condições onde se efectuavam os encontros de futebol, primeiro em frente ao edifício dos Caminhos de Ferro, em seguida no largo um pouco mais ao fundo, com bancadas e balneários rudimentares, e inadequadas ao tempo.


Os clubes no distrito de Moçâmedes, sem quaisquer subsídios por parte do Estado e das Câmaras Municipais, foram até ao fim da colonização portuguesa, carentes de recursos materiais, e iam sobrevivendo na dependência das quotizações dos seus sócios, das poucas receitas dos jogos que se iam efectuando, e de outros mecanismos como o bingo (quino), festas, etc... Restava o esforço e empenhamento dos atletas, a «carolice» e dedicação de uns quantos, que nas horas de lazer se dedicavam à causa clubista, bem como o incentivador calor dos aplausos das gentes de Moçâmedes no momento dos jogos.  
Nunca é demais lembrar que em Moçâmedes os pioneiros do futebol partiram para estas lides adquirindo equipamentos com o seu próprio dinheiro, que suportaram todos os sacrifícios e limitações, treinando e jogando em campos de terra batida, em péssimas condições e que nunca se deixaram vencer, fazendo rejubilar de alegria uma cidade inteira. 
Nunca é demais lembrar que desses mesmos campos sairam «vedetas» que foram alimentar o desporto desta modalidade noutras paragens longínquas, levando consigo o nome da cidade, e de Angola. Um exemplo, talvez o máximo, foi Fernando Peyroteo, conhecido por «o pé de canhão», que fez parte dos célebres «cinco violinos» do Sporting Clube de Portugal e da Selecção Nacional e que figurou entre os melhores do desporto português de todos os tempos, chegando a ser seleccionador nacional o ano de 1961. Fernando Peyroteo era natural da Humpata-Angola e inciou-se no futebol em 1832, aos 14 anos, no Atlético Clube de Moçâmedes. E já em meados do século XX, nomes como de João Luis Maló de Abreu que começou em Moçâmedes, sua terra natal, a sua actividade futebolística e que se revelou um grande guarda-redes na Académica de Coimbra, quando para aquela cidade se deslocou para prosseguir os estudos, onde se formou, e onde hoje é conhecido como o Professor Dr. Maló, catedrático da Faculdade de Medicina, principal responsável pela criação do Curso de Medicina Dentária.  
E já próximo da independência de Angola as gentes do distrito rejubilaram com a grande proesa do Independente Clube de Porto Alexandre, que foi não só o único Clube do distrito  a ganhar o Campeonato de Futebol de Angola, como a vencê-lo por três anos sucessivos (1969, 1970 e 1971), tendo ficado na posse da monumental taça «Cuca». Uma vitória estrondosa que ficou a dever-se ao esforço abnegado dos seus jogadores e do seu jogador-treinador, Manuel Gancho e de dirigentes tais como Rui Filipe Barreto de Lara e Manuel Trocado. Dessa equipa tri-campeã de Angola fizeram parte: Gavino, Gancho l (treinador e capitão), Gancho ll, Fernando, Cardeal, Quicas, Estrela ll, Estrela l, Osvaldo Bastos, Armandinho, Mário José, Castro, Agostinho e Neto.

Apesar do Independente ter sido um dos clubes pioneiros no desporto do Distrito, durante muito tempo este clube viu bloqueadas as suas aspirações de ir mais além, na medida em que não possuía instalações, e o campo de que passou a dispor para os treinos de futebol, a partir de 1953, reduzia-se a um areal nas traseiras da antiga Delegação Marítima. E também, porque as deslocações semanais a Moçâmedes para participarem nos campeonatos distritais exigiam um grande espírito de sacrifício aos seus jogadores, dado a morosidade e penosidade dos percursos até à década de 50,  uma vez que tinham que atravessar o deserto em incómodas camionetas que chegavam a demorar 4 ou mais horas para percorrer apenas 100 km. Seria caso de nos interrogarmos: o que seria então o Independente, se este clube pudesse disponibilizar aos seus desportistas as condições existentes hoje nos países avançados?


Para texto mais completo sobre Futebol em Moçâmedes, ver aqui: 
 http://memoriasdesportivas.blogspot.pt/2007/11/blog-post_5439.htm


 
Nota: Após ter sido publicada esta postagem, recebi um contacto de alguém que me informou, que, não obstante  de início,  o nome escolhido ter sido "Estádio Municipal Telmo Vaz Pereira", tal não se concretizou.  Manteremos contudo o nome, enquanto aguardamos uma clarificação do assunto, pois não me souberam esclarecer. No livro de Mário Guedes da Silva sobre o desporto moçamedense , consta o "Estádio Municipal Telmo Vaz Pereira".

12 outubro 2016

Moçâmedes na pena da poetisa Concha Pinhão


Moçâmedes, a minha terra e suas suas gentes, foram fonte inspiradora de poetas que por ali passaram, ou que ali nasceram, e nos legaram poemas tocados pelo sentimento e pelas emoções sentidas e vividas pela acutilância da mensagem que procuraram passar, dignos de serem dados a conhecer ao mundo.

Tinham passado 33 anos sobre a independência de Angola. Num dos encontros anuais na mata de Caldas da Rainha voltei a ver a poetisa Concha Pinhão, esposa do Dr. Pinhão de Freitas, que foi médico em Moçâmedes. Estava ali a oferecer aos moçamedenses interessados na sua poesia alguns exemplares do seu livro de poemas «Sabor Amargo, Amargo Sabor». Tive o prazer de ser uma das contempladas com um exemplar desse livro onde a poetisa nos mostra toda exuberância de artista, numa Angola que a fascinou, quer pela sua majestática beleza, quer pelas suas gentes, com quem partilhou os anos mais dourados de sua vida.

A Concha Pinhão que me habituei a ver em Moçâmedes, era uma mulher de altura mediana, magra, tez clara e cabelo negro penteado ao alto, que emanava uma certa exuberância que dava nas vistas. Quem não conhecesse a sua faceta intelectual e de poetisa, era o penteado que a distinguia das demais mulheres da terra. Fazia lembrar uma típica sevilhana.

Em 1971, Concha Pinhão foi contemplada com o 1º prémio dos Jogos Florais das «X Festas do Mar». Aliás, o diploma e a medalha que lhe foram entregues na altura pela Câmara Municipal de Moçâmedes, ilustram a última página deste seu livro.

Desconhecia o tom suavemente provocatório da sua poesia, de onde emana uma velada critica social com apelos tocantes e só por si reveladores da sua fina sensibilidade. Fiquei maravilhada com a erudição, simplicidade e ritmo dos seus escritos, muitos dos quais nos remetem para os últimos anos da colonização, e despertam em nós sensações de toda a nostalgia que Concha sentiu ao escrevê-los. Eis alguns dos seus poemas:

AQUELA ANGOLA

Aquela Angola Mulata!...
Aquela Angola Mestiça!...
Beleza que às vezes mata
E se não mata enfeitiça!...

"Sabor Amargo, Amargo Sabor"
de Concha Pinhão

NAMIBE

Por tê-lo assim tão perto,
A areia deste deserto
Enamorou-se do mar.
E viver ardente, corada
Por sentir-se desejada
Desejada sem se dar.

Angola 1968
"Sabor Amargo, Amargo Sabor"
de Concha Pinhão



MAR DESFEITO

Na praia das Conchas, fito
O mar revolto, infinito
Bater nas rochas, desfeito...
E olhamo-nos, tanto, tanto,
Que suas ondas são pranto,
Que vem bater no meu peito...

Angola, 1968
"Sabor Amargo, Amargo Sabor"
de Concha Pinhão



EMBONDEIRO

Irei amar-te,
Embondeiro
Meu tronco seco no teu,
Braços que vão procurar
Outros que buscam o céu,
que nesse monte cimeiro
onde vives desolado,
Vou cobrir teu peito nu.
Com o meu cabelo enrolado!
Na solidão... eu e tu.

Estendo tuas raízes
A dar seiva a quem passa,
Agente que passa a rir,
Fingindo que são felizes
Num mundo todo a ruir.

Ao menino deserdado,
mais pobrinho,
mais sozinho,
Que brinca lá na lagoa,
Dou teu fruto aveludado
Para fazer uma canoa.

Dou o teu ventre fibroso,
A mendigo desditoso,
Por abrigo em noite fria;
E as feras mansas, tremendo,
No medo sem companhia.

Nós vamos rindo embondeiro
Desse teu monte cimeiro,
De quem ri da solidão.
De ti, que não vales nada,
Nem dás tábua para caixão

Como é bom ser esse nada!...
Não dar tábua serrada,
Não ser madeira forrada,
A transportar podridão!...

Nota: Concha Pinhão foi a vencedora do 1º prémio dos Jogos florais 
das «x Festas do Mar» 1971, com o poema «Embondeiro». Concha Pinhão (Do livro de poemas «Sabor Amargo»)



A LISONJA

É a lisonja nefasta
Quando a verdade se afasta
Da verdade que nós somos
Nosso ego cria sonhos
De bergantim* sobre o mar.

Com o falar lisonjeiro
Tem cautela marinheiro
não te deixes afundar.

Concha Pinhão
Do livro de poemas «Sabor Amargo». Estoril 2002

* O bergantim era o mais subtil e veloz dos navios de remo, tipo galé,
 utilizados pelos portugueses.

ESSE MÉDICO... QUE CONHECI

Corria na madrugada
Sempre que alguém gritava
Por um filho que nascia
Na mata verde parava
Cubata se iluminava
O milagre acontecia

Exausto mas deslumbrado
Sorvia cheiro a molhado
Do capim rasgando o chão
Só quem viu terra-parida
Conhece a força incontida
Nessa terra em convulsão

Concha Pinhão
Do livro de poemas «Sabor Amargo»



BRUMA

Chora minha bandeira,
Chora
Que o teu corpo de quinas
Vai amanhã enrolar
Como trapo no mercado
Dos sem fé a governar.

Chora minha bandeira,
Chora
Pelo vermelho sangrento
Do gentio abandonado
De gente que deu suor
Foi escravo,
Foi senhor
E foi evangelizado.

Chora minha bandeira,
Chora
Por portugueses, corsários
Aventureiros,
Audazes
Negreiros
Homens rapaces
Homens que rasgaram mares
Descobriram continentes
Juntaram sangues diferentes
Inventaram essas gentes
Portugueses d'Além Mar

Os homens passam
Pequenos
tempo curto no viver
Ficarão no pó da estrada
Sem merecimento ter

Nossa bandeira irmanada
Há-de brilhar desfraldada
Nos mundos que viu nascer

Concha Pinhão
Do livro de poemas «Sabor Amargo». Estoril, 1976

Ficam estas recordações.
MariaNJardim